Web & Presse
A década da América Latina
Valor - Robinson Borges

(09.06.2013)

Patricia Phelps de Cisneros, eleita a 27ª pessoa mais influente no mundo das artes: 200 de suas obras, como o quadro de Cruz-Diez, estão em cartaz no Museu Reina Sofia, em Madrid
 

 

Quando a jovem Patricia Phelps ia de casa para a escola, em Caracas, se encantava diariamente com a exuberância da arte pública que ocupava a capital venezuelana, com assinaturas de peso como as de Jesús Soto (1923-2005). Na Aula Magna da Universidade Central de Caracas, não se cansava de apreciar a radicalidade das soluções que o americano Alexander Calder (1898-1976) criara para o teto do espaço, repleto de discos coloridos, um marco nacional. Pode-se creditar a essa experiência estética quase cotidiana, na infância e na juventude, um dos maiores e mais importantes acervos de arte latino-americana do mundo: a Coleção Patricia Phelps de Cisneros.

Casada com Gustavo Cisneros, segundo a revista "Forbes" o homem mais rico da Venezuela - com fortuna em torno de US$ 4,4 bilhões -, Patricia começou a adquirir suas obras despretensiosamente. Em viagens com o marido, que tem negócios na área de mídia e entretenimento, visitava exposições e ateliês em diversos países da América Latina. Na década de 1970, no entanto, seus quadros, esculturas e instalações ganharam vínculos e adquiriram uma dimensão que permitiu qualificá-la de coleção. "Aconteceu devagar e um dia tive um momento 'eureca' e disse: 'Nossa! Isso parece uma coleção'", diz Patricia, em entrevista ao Valor, por telefone. "Gostaria que a entrevista fosse pessoalmente. Queria estar no Brasil. Estou louca para ver os novos museus que abriram aí, a Casa Daros [de arte latino-americana] e o MAR [cujo diretor cultural é o ex-curador de sua coleção Paulo Herkenhoff], ambos no Rio", continua, com bom humor que permanece por toda a conversa.

Eleita a 27ª pessoa mais influente no mundo das artes, segundo a "Art Review", Patricia é integrante do conselho do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York e da Tate de Londres, duas referências globais que têm interesse crescente pela arte latino-americana. "Esta é a nossa década", celebra a colecionadora, que tem se dedicado a divulgar a exposição "A Invenção Concreta", em cartaz até setembro no Museu Reina Sofia, em Madri. A mostra traz 200 obras de sua coleção, com peças do abstracionismo geométrico, movimento artístico que ocorreu na América Latina entre os anos 1930 e 1970. Doze artistas brasileiros fazem parte da mostra, entre eles Mira Schendel, Lygia Clark, Lygia Pape, Cildo Meireles e Hélio Oiticica. É a primeira vez que sua coleção chega à Europa.

Os brasileiros podem acessar o site (www.lainvencionconcreta.org) para conhecer as obras expostas, os artistas e suas intenções. A ideia é romper as barreiras geográficas e apostar em plataformas digitais. "Acho que conseguiremos difundir a cultura latino-americana de forma instantânea. É incrível."

Valor: Glenn Lowry, diretor do MoMa, declarou recentemente que o museu está interessado em arte brasileira e latino-americana. Quando sir Nicholas Serota, diretor da Tate, veio ao Brasil, afirmou que reconhece ser preciso colecionar arte no mundo todo e ressaltou que não há mais um único centro de arte contemporânea. A senhora acredita que há uma porta aberta para a arte latino-americana na cena global?

Patricia Phelps de Cisneros: Estou convencida de que esta é a década da América Latina. O fato de Lowry visitar o Brasil com tanta frequência é indicativo disso. Há um comitê latino-americano no MoMA, que possui a coleção de arte da região mais completa do mundo. Acho que tem a ver com o aspecto econômico. Muitos países estão indo bem, e os artistas latino-americanos são muito bons. As pessoas finalmente estão começando a notar isso. Veja o que acontece no Brasil, por exemplo. Vocês têm artistas extraordinários. Não posso citar nomes, posso dizer quem está na exposição ["A Invenção Concreta"]: Geraldo de Barros, Lygia Clark, Willys de Castro. Tivemos uma sala inteira de Willys na primeira vez que seu trabalho foi exposto na Europa. Foi um sucesso. Todos esses artistas são muito bons, só precisavam de um empurrãozinho. Os artistas latino-americanos são os segredos mais bem guardados do mundo.

Valor: Alguns especialistas alertam sobre o perigo de formação de uma bolha na arte latino-americana. A senhora concorda?

Patricia: Não, não é uma bolha. A Feira [de Arte] de Maastricht publicou um relatório econômico muito extenso. Você deve ter visto que pela primeira vez na história há um capítulo inteiro sobre o Brasil! É 1% [o porcentual da participação do país no mercado global], mas é importante, porque antes não havia nada.

"Todos esses artistas só precisavam de um empurrãozinho. São os segredos mais bem guardados do mundo", diz Patricia Phelps de Cisneros

Valor: O que precisa ser feito para que essa fase continue e não seja apenas modismo?

Patricia: Parte da missão da nossa coleção é mostrar ao mundo que não é uma moda, que há substância nos processos de pensamento de nossos artistas. Estamos nos concentrando em maior circulação, mais exposições, mais publicações e, certamente, estamos tentando fazer nossa pequena contribuição para ajudar o mundo acadêmico a ter mais cursos sobre a América Latina. A profundidade que já existe na arte dessa região precisa ser a coluna vertebral da percepção das pessoas no mundo. O desenvolvimento profissional também é importante.

Valor: Sua fundação ofereceu US$ 1 milhão em apoio a uma universidade de Nova York para promover a arte latino-americana nos EUA. Como esse trabalho pode ajudar a mudar a percepção que os americanos têm da América do Sul?

Patricia: A Hunter College é uma universidade em que acredito muito. Fica no coração de Nova York. São 55 mil estudantes, dos quais 90% são os primeiros de suas famílias a frequentar uma faculdade. E o custo é de US$ 5 mil por ano, muito pouco a se pagar por uma boa educação nos Estados Unidos. Gosto da composição social da universidade, que tem muitos alunos latino-americanos e um programa de arte muito bom, mas que não era muito voltado à América Latina. Com essa iniciativa, há cursos sobre arte latino-americana e exposições o ano todo. Achamos que o maior benefício viria de ajudar algo que seria transformador... Nossa primeira exposição nos EUA foi em Harvard, no Fogg Museum. O objetivo era abrir os olhos dos americanos para os latino-americanos, porque a América Latina era meio que um continente esquecido, não é? Isso já mudou.

Valor: Por que demorou tanto tempo para sua coleção chegar à Europa?

Patricia: Não acho que demoramos tanto. Tudo tem seu tempo. No começo estávamos construindo a coleção. É como um pintor: quando ele pinta pela primeira vez, assina a pintura e isso quer dizer que, para ele, a pintura está concluída. A maioria dos pintores leva muito tempo para assinar sua primeira obra. No nosso caso, levou muito tempo até dizermos: "OK, vale a pena mostrar a coleção". Ficamos cerca de 20 anos coletando obras lentamente. Lembre-se, na época não havia internet.

Valor: A senhora começou sua coleção ainda na década de 1970. Como tomou essa decisão de colecionar? Qual foi sua primeira pintura?

Patricia: Nossa coleção não começou com a intenção de ser uma coleção. Eram só objetos belos, que gostava de olhar quando jovem. Um dia tive um momento eureca: "Nossa! Isso parece uma coleção". A partir daquele momento ficamos mais rigorosos, não só em termos do que colecionávamos, mas na conservação. Em meados da década de 1970, compramos nosso primeiro Jesús Soto. Eu viajava muito com meu marido, a trabalho, por toda a América Latina. Foi a primeira coleção de arte latino-americana. Havia coleções excelentes, em todos os países, mas dos artistas locais. Meu marido insistia para que eu pensasse globalmente, e criamos a primeira coleção latino-americana. Quando começamos a expor, os artistas da Venezuela não sabiam bem o que acontecia no Brasil, ou os artistas do Uruguai não sabiam o que acontecia no Peru. Tínhamos a impressão de que levar nossa coleção para o nosso continente era importante para ajudar a criar pontes de entendimento entre nossos países.

Valor: Vocês nunca pensaram em ter um museu Patricia e Gustavo Cisneros?

Patricia: Já pensei nisso, mas sempre deixei muito claro que não queríamos nosso museu, pois sentíamos que naquela época ninguém conhecia a arte latino-americana. Se enviássemos obras para Barcelona, Tóquio, Copenhague etc., nossa missão seria muito mais bem cumprida do que se esperássemos que todas aquelas pessoas fossem a Caracas para ver arte da América Latina. Em um ano teremos uma média de 300 a 400 obras emprestadas pelo mundo.

Valor: Qual é o seu método para selecionar e adquirir as obras de sua coleção?

Patricia: Leio as revistas, vejo o que está acontecendo na internet, estudo, pesquiso e depois vou a ateliês de artistas, converso com eles, mas também acredito na necessidade de ter bons curadores. Uma das nossas curadoras é [a mexicana] Sofia Hernandez Chong, que será a próxima curadora da Bienal do Mercosul, em setembro [em Porto Alegre]. Sofia passa um mês na Colômbia, um mês no Peru, um mês na Venezuela e explora as cenas locais. Depois nos fala dos artistas. Às vezes traz as obras com ela. Às vezes, vamos onde ela foi. Ela faz o trabalho de campo. Depois conversamos. O Paulo Herkenhoff, [que foi] meu curador há algum tempo, abriu meus olhos para os artistas extraordinários que trabalharam no Brasil nas décadas de 1940, 1950, 1960 e os contemporâneos.

Valor: O venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador da última Bienal de São Paulo, também trabalhou com a senhora.

Patricia: Foi nosso curador durante uns 15 anos. Hoje, tenho o Gabriel Pérez-Barreiro, que está na minha frente, não quero deixá-lo envergonhado. Gabriel tem sido extraordinário. Quando vou para Nova York ou outro lugar, ele diz: "Veja tal e tal artista, não deixe de ver isso". Eles me ajudam muito nas minhas pesquisas.

Valor: A senhora é conhecida por manter contato com os artistas, vai a ateliês...

Patricia: Sim, eu gosto. Muitas coisas você esquece, mas nunca vou esquecer uma tarde que passei com Waltercio Caldas, no ateliê dele, com vista para o Rio, em um sofá todo surrado, com dois pedaços de tecido, um vermelho e um amarelo, pendurados no teto. Conversamos durante horas. Você conhece o Waltercio pessoalmente?

Valor: Nunca o entrevistei...

Patricia: Seria a entrevista das entrevistas. É tão maravilhoso ouvi-lo falar! Ele é muito eloquente, muito inteligente e aprende-se tanto com ele. Ele vai expor [em outubro] no Blanton Museum [Austin], e o curador é Gabriel Pérez-Barreiro. Está tudo em família.

Valor: A senhora se importa em dizer quantas obras tem em sua coleção?

Patricia: Não estou tentando evitar a pergunta, mas é difícil saber, porque temos muitos livros de artistas com impressões, por exemplo. Se contarmos cada impressão como uma obra em si, os números não seriam corretos. Por isso, não sei bem quantas obras nós temos.

Valor: O que é colecionar para a senhora? É muito diferente do que no começo?

Patricia: A missão da nossa coleção mudou. Ainda colecionamos, gostamos de encontrar artistas jovens pré-emergentes e emergentes que não são muito conhecidos. Encontrá-los é a parte divertida do processo. No momento, estamos nos concentrando na educação, com ênfase em recursos investidos no desenvolvimento do aspecto digital da coleção, para que possamos aumentar a divulgação, bem como nossas publicações e o apoio a artistas. Com relação à sua pergunta, se estamos colecionando de maneira diferente? Sim, estamos nos concentrando em programas e estou interessada em falar sobre os artistas e a conservação das obras. Tentamos conscientizar os jovens colecionadores.

Valor: Sua coleção entrou com força no mundo digital. Qual é a importância desse meio?

Patricia: Você pode acessar, em inglês ou espanhol, o site lainvencioncompleta.org, e pode baixar a exposição em iPad e iPhone e usar o iPhone dentro do museu quando visita a exposição, para saber mais sobre ela. Se você parar em frente de uma obra de Cildo Meireles, Lygia Pape, Mira Schendel, pode aprender mais sobre eles em seu iPhone. No Brasil, você pode visitar [digitalmente] a exposição e aprender mais, e se aprofundar na informação que incluímos no aplicativo. Outra coisa que fazemos em mídia digital é o "streaming". Nesse convênio que temos com o Reina Sofia, realizamos uma conferência, que precedeu a exposição "A Invenção Concreta". E o custo se justificou, pois estávamos transmitindo em "streaming". Na Venezuela, também estamos realizando conferências internacionais, convidando palestrantes internacionais importantes, e é claro que isso é maravilhoso para os cidadãos da Venezuela, mas também transmitindo em "streaming". Tivemos 9 mil espectadores do mundo todo assistindo às nossas conferências.

Source : Valor - Robinson Borges

Retour au menu Précédent Suivant
Rechercher
Mot clé
RestaurerRechercher